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IA na Moda: Inovação, Polêmica e o Futuro do Guarda-Roupa
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Inteligência Artificial

IA na Moda: Inovação, Polêmica e o Futuro do Guarda-Roupa

Entre manequins sintéticos, gêmeos digitais e bilhões em jogo, a indústria da moda vive seu momento mais ambivalente. Um olhar estratégico sobre o que irrita, o que encanta e o que vem a seguir.

Uma simples pergunta em uma rede social pode acender um debate complexo e multifacetado: "Por que a IA na moda nos irrita tanto?". A questão, levantada em um post que rapidamente viralizou, captura o sentimento ambivalente que permeia a indústria da moda hoje. De um lado, a promessa de uma revolução tecnológica que oferece eficiência, sustentabilidade e novas possibilidades criativas. Do outro, o receio da desumanização, da perda de empregos e da padronização estética.

A verdade é que a Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa distante e se tornou uma força presente e disruptiva, com marcas gigantes como Zara, Guess e H&M mergulhando de cabeça na nova era — para o bem ou para o mal.

A ascensão dos manequins digitais

O ano de 2025 foi um marco para a consolidação da IA no imaginário da moda, com uma série de campanhas que geraram tanto fascínio quanto controvérsia. Em agosto, pela primeira vez na história, a prestigiada revista Vogue veiculou anúncios da marca Guess estrelados por uma modelo inteiramente sintética, criada por um estúdio de IA. A reação foi imediata, com profissionais do setor, como a modelo plus size Felicity Hayward, classificando a iniciativa como "preguiçosa e barata".

Poucos meses depois, em dezembro, a gigante do fast-fashion Zara tornou-se o centro de uma nova polêmica ao adotar o "reaproveitamento digital" de modelos. Utilizando IA generativa, a marca passou a "vestir" digitalmente modelos de carne e osso com novas peças de roupa a partir de ensaios fotográficos antigos, eliminando a necessidade de novos shootings e, consequentemente, de toda a equipe envolvida — de fotógrafos a maquiadores. A H&M seguiu um caminho semelhante, anunciando a criação de "gêmeos digitais" de seus modelos para uso em campanhas.

Os casos que pautaram a conversa

MarcaCaso de uso de IADataRepercussão principal
GuessPrimeira modelo 100% sintética em anúncio na VogueAgosto 2025Choque na indústria, críticas sobre a perda de autenticidade e empregos.
Zara"Reaproveitamento digital" de modelos reaisDezembro 2025Alerta sobre a "demissão invisível" de fotógrafos, stylists e outros profissionais.
H&MCriação de "gêmeos digitais" de modelosMarço 2025Preocupação com a precarização e o futuro do trabalho de modelo.
Levi'sUso de modelos de IA para "aumentar a diversidade"2023Duras críticas e recuo da marca, acusada de evitar contratar modelos reais.

Uma revolução de bilhões de dólares

Longe de ser um mero experimento estético, a adoção da IA na moda é um movimento de mercado estrondoso. O setor, avaliado em US$ 1,81 bilhão em 2025, tem projeção de crescimento para US$ 2,56 bilhões em 2026 e pode atingir a impressionante marca de US$ 40,81 bilhões até 2034. Este crescimento é impulsionado não apenas pelas marcas, mas também pelos consumidores. Entre 2024 e 2025, as buscas em ferramentas de IA relacionadas a compras cresceram 4.700%.

No entanto, a opinião do consumidor é um campo de batalha. Enquanto uma pesquisa de janeiro de 2026 aponta que apenas 26% dos americanos confiam na IA para o varejo, outros estudos mostram que quase 60% dos consumidores já a utilizam para fazer compras — com quase metade confiando mais em seus conselhos de estilo do que nos de um amigo.

Os dois lados da moeda: atrito e oportunidade

A "irritação" mencionada no post original tem raízes profundas e justificáveis. A principal delas é o impacto no mercado de trabalho. A "demissão invisível" de fotógrafos, stylists e assistentes, como no caso da Zara, é uma realidade. Previsões mais pessimistas sugerem que a IA poderia eliminar até 70% dos empregos em design de moda até 2028.

Além da questão empregatícia, há uma forte preocupação ética e estética. Críticos apontam para uma homogeneização que resulta em imagens "sem alma". Gigi Casimiro, cofundadora do WeAR Experience, alerta para um problema ainda mais grave:

Não se trata mais de uma 'pele perfeita retocada com Photoshop', mas de uma pele de natureza não humana, sintetizada com perfeição.

Isso pode agravar inseguranças do público, especialmente em torno de corpo e aparência. Some-se a esse risco a perpetuação de vieses algorítmicos que reforçam estereótipos e falham em representar a diversidade real, como aponta Eduardo Freire, CEO da FWK Innovation Design.

A premissa de que tudo precisa ser otimizado pela quantidade, pela escala e pelo imediatismo descartável da dopamina está destruindo o valor percebido do mercado, não apenas o de moda. — Olivia Merquior, CEO na IARA

O outro lado: a IA como solução

Contudo, a IA também se apresenta como uma poderosa ferramenta para solucionar alguns dos problemas mais crônicos da indústria. Sendo a moda a segunda maior poluidora global, a capacidade da IA de prever demandas com alta precisão pode reduzir drasticamente o desperdício e o superestoque. Marcas como a brasileira Aramis já são pioneiras nesse uso.

A tecnologia também democratiza o acesso, permitindo que pequenas marcas e designers independentes — sem verba para grandes produções — criem campanhas de alta qualidade. O próprio estúdio que criou a modelo da Guess nasceu dessa necessidade.

Coexistência em vez de substituição

O futuro, ao que tudo indica, não será uma escolha binária entre o humano e o artificial, mas uma complexa coexistência. A tecnologia avança em um ritmo que a legislação não consegue acompanhar, tornando o debate sobre ética e governança ainda mais urgente. A intuição, o repertório cultural e a sinergia criativa do toque humano, como defende a estilista Karoline Vitto, se tornarão diferenciais ainda mais valiosos em um mundo saturado por imagens sintéticas.

Talvez a IA não substitua os profissionais — mas sim os profissionais que não sabem usar a IA. A tecnologia pode assumir o trabalho operacional e tático, liberando os humanos para o que fazem de melhor: ser estratégicos, criativos e, acima de tudo, humanos.

A questão não é mais se a IA vai transformar a moda, mas como vamos moldar essa transformação para que ela seja mais justa, mais criativa e, quem sabe, um pouco menos irritante.

TV

Tania Vicente

Trend Intelligence · CEO iW2 Digital

Mais de 20 anos conectando tecnologia, tendências e cultura.

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